Exame de sangue pode antecipar diagnóstico do câncer de pulmão

A biópsia líquida é um conjunto de técnicas que analisam biomarcadores tumorais circulantes, em especial DNA tumoral circulante (ctDNA), a partir de uma simples amostra de sangue. 

No câncer de pulmão, o ctDNA carrega mutações e outras alterações genômicas do tumor primário e/ou de metástases, permitindo uma caracterização molecular dinâmica e menos invasiva do que a biópsia de tecido.

🔹 O que o exame pode mostrar:

Em neoplasias pulmonares, a análise de ctDNA pode identificar mutações acionáveis em genes como EGFR, ALK, ROS1, BRAF, MET e RET, entre outros, auxiliando na escolha de terapias alvo quando o material de biópsia é escasso ou de difícil obtenção. Além disso, a meia‑vida curta do ctDNA possibilita monitorar em “tempo quase real” a resposta ao tratamento, detectando redução ou reaparecimento de variantes específicas durante o uso de terapias alvo, quimioterapia ou imunoterapia. Estudos demonstram que a elevação do ctDNA pode anteceder em semanas ou meses a progressão radiológica, enquanto a depuração do ctDNA se associa a melhor sobrevida livre de progressão e global.

Outro campo em expansão é a detecção de doença residual mínima (MRD) após cirurgia ou tratamento potencialmente curativo em tumores de pulmão em estágios iniciais. A positividade persistente ou recorrente de ctDNA após o tratamento tem se mostrado fortemente associada a maior risco de recidiva, o que abre espaço para estratégias de tratamento adjuvante ou vigilância mais intensiva em subgrupos selecionados.

🔹 Limitações e desafios atuais:

Apesar do grande potencial, a sensibilidade da biópsia líquida diminui em cenários de baixa carga tumoral, como em tumores muito pequenos ou doença localizada, o que restringe seu uso isolado para diagnóstico ou rastreamento populacional. Há também desafios técnicos de padronização dos métodos, definição de pontos de corte, interferência de DNA não tumoral e variações entre plataformas comerciais, o que exige interpretação cuidadosa por equipes experientes.

Por esses motivos, sociedades científicas e consensos de prática clínica consideram a biópsia líquida uma ferramenta complementar, especialmente útil quando a biópsia de tecido é inviável ou insuficiente, ou quando é necessário acompanhamento seriado da doença. Em muitos protocolos, recomenda‑se confirmar em tecido alterações inesperadas ou achados de grande impacto terapêutico sempre que possível.

🔹 E o rastreamento de câncer de pulmão?

Para indivíduos de alto risco, em geral fumantes e ex‑fumantes com determinada carga tabágica e faixa etária específica, a tomografia computadorizada de baixa dose continua sendo o método de rastreamento recomendado, com benefício comprovado em redução de mortalidade por câncer de pulmão em grandes estudos clínicos. Ensaios que avaliam a associação de ctDNA e outros biomarcadores sanguíneos à tomografia estão em andamento, mas, até o momento, a biópsia líquida isolada não substitui a TC de baixa dose em programas de rastreamento.

🔹 Como isso chega ao paciente:

Na prática, a utilização de biópsia líquida deve ser individualizada e pode ser uma opção quando não é possível obter biópsia pulmonar adequada, quando se deseja complementar o painel molecular ou quando o objetivo é monitorar resposta e resistência ao longo do tratamento. A escolha entre exames de sangue, imagem e biópsia de tecido depende do estágio da doença, das condições clínicas do paciente e das questões terapêuticas em discussão, sempre em conjunto com o oncologista e o pneumologista.

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👨‍⚕️ Dr Stefany Cardoso Faria
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