7Micro(nano)plásticos, inflamação crônica e câncer: Como chegam ao organismo e por que preocupam na carcinogênese.

O que são micro e nanoplásticos?

 

  • Microplásticos (MPs) são partículas de plástico menores que 5 mm; 
  • Nanoplásticos (NPs) são ainda menores, na faixa de nanômetros.
 

Surgem da degradação de plásticos comuns (PE, PP, PET, PVC, PS) presentes em embalagens, tecidos sintéticos, utensílios e produtos de uso diário.

 

Hoje, essas partículas já foram detectadas em água potável, alimentos, ar, bem como em sangue, placenta, mecônio, leite materno, fezes e vários tecidos humanos, o que indica exposição contínua desde a vida intrauterina até a vida adulta.

 

Como esses plásticos chegam ao nosso organismo?

 

  • Ingestão: água (torneira ou engarrafada), peixes e frutos do mar, sal, alimentos ultraprocessados e comida em contato direto com embalagens plásticas e filmes de vedação.
  • Inalação: fibras sintéticas de roupas, poeira doméstica e partículas em suspensão em ambientes urbanos.
  • Contato com embalagens e calor: aquecer alimentos em recipientes plásticos (especialmente não específicos para microondas) aumenta a liberação de micro/nanoplásticos e de aditivos químicos para a comida.

O consumo frequente de refeições de delivery e produtos ultraprocessados em contato direto com embalagens plásticas foi associado a maior ingestão dessas partículas. Estudos mostram que recipientes “prontos para microondas” podem liberar milhões de micropartículas por litro após o aquecimento, além de dezenas de substâncias químicas intencionalmente ou não adicionadas ao plástico.

 

Micro e nanoplásticos na carcinogênese: o que a ciência já mostra?

 

A literatura recente tem sugerido que MPs e NPs não atuam, em geral, como carcinógenos “isolados”, mas como co‑fatores e promotores tumorais em um contexto de exposição crônica.

 

  1. Plataformas para toxinas e inflamação crônica

MnPs funcionam como “esponjas” ou plataformas para metais pesados, poluentes orgânicos persistentes (POPs), hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs) e plastificantes, aumentando a carga de toxinas que chega aos tecidos.

 

Esses complexos podem induzir estresse oxidativo, inflamação crônica, dano ao DNA, mutações e desregulação endócrina, todos pilares clássicos da carcinogênese.

 

Deng et al. (Molecular Cancer 2025) destacam que a alteração do balanço redox, com aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS) e dano genômico, é uma via central pela qual MnPs aumentam o risco de transformação maligna.

 

 

  1. Ativação de vias de sinalização pró-tumorais

Mishra et al. descrevem que a exposição a MnPs pode ativar vias de oncogênese como NF‑κB, PI3K/Akt/mTOR, Wnt/β‑catenina e p53, com efeitos sobre:

 

  • Proliferação celular e escape da apoptose.
  • Metabolismo energético e lipídico das células tumorais.
  • Remodelação do microambiente tumoral, incluindo ativação de fibroblastos, dano endotelial e alteração da matriz extracelular.
  • Modulação da resposta imune, com ativação de receptores do tipo Toll (TLRs), disfunção de macrófagos e quebra da vigilância imune, criando um microambiente mais permissivo ao tumor.
 
  1. Órgãos e tumores mais estudados até agora

Revisões sistemáticas recentes e estudos experimentais apontam associação entre exposição a MPs/NPs e alterações em:

 

  • Pulmão: inflamação crônica, lesão epitelial e possível aumento de risco de câncer em contextos de exposição ocupacional e urbana.
  • Trato gastrointestinal: disbiose, aumento de permeabilidade intestinal, inflamação de mucosa e possíveis impactos em carcinogênese colorretal e gástrica.
  • Fígado: toxicidade hepática, estresse oxidativo e alterações em vias relacionadas a hepatocarcinogênese.
  • Mama e sistema reprodutor: estudos sugerem interferência endócrina, alterações em fertilidade e possível ligação com neoplasias hormônio‑dependentes.

Além disso, trabalhos patológicos recentes descrevem presença de partículas plásticas em amostras de tumores de pulmão, cólon, estômago, mama, fígado, colo uterino, próstata, pênis e cérebro, reforçando a hipótese de acúmulo local e modulação do microambiente tumoral.

 

Microplásticos, hábitos diários e prevenção prática

 

Embora ainda não exista uma “dose segura” claramente definida, organismos internacionais e agências regulatórias já reconhecem MnPs como contaminantes emergentes, com necessidade urgente de avaliação de risco mais robusta. Do ponto de vista prático, algumas medidas simples podem reduzir a exposição:

 

  • Priorizar aquecimento de alimentos em recipientes de vidro ou cerâmica, evitando plásticos sempre que possível.
  • Reduzir consumo de ultraprocessados e de refeições em contato direto com embalagens plásticas quentes.
  • Dar preferência a água filtrada em recipientes de vidro ou aço inox, em vez de plásticos descartáveis.

Essas ações não substituem políticas públicas, mas contribuem para diminuir a carga total de exposição a micro e nanoplásticos ao longo da vida.

 

A “dupla face” dos micro/nanoplásticos na oncologia

 

Um ponto interessante da literatura recente é que as mesmas propriedades que tornam MnPs preocupantes do ponto de vista tóxico também os tornam candidatos a ferramentas em nanomedicina oncológica.

 

  • Tamanho e forma podem ser controlados para favorecer penetração tumoral e uptake celular.
  • Carga superficial, hidrofobicidade e ligantes de superfície podem ser modulados para aumentar a entrega de quimioterápicos diretamente no tumor e reduzir toxicidade sistêmica.
  • MnPs modificados já foram estudados como carreadores de pequenas moléculas, proteínas e ácidos nucleicos, com possibilidade de direcionamento a receptores específicos em células tumorais.

 

Essa dualidade, fator ambiental emergente de risco e, ao mesmo tempo, plataforma tecnológica potencial, reforça a necessidade de que oncologistas, pesquisadores e formuladores de políticas acompanhem de perto a evolução das evidências.

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👨‍⚕️ Dr Stefany Cardoso Faria
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